Por Wanderley `Tico´ Cassolla
Esta semana todos os esportistas, amantes do futebol, foram surpreendidos com a demolição do tobogã do Estádio Municipal “Paulo Machado de Carvalho”, em São Paulo. É o progresso que chega e prepara estas surpresas. O lendário “Pacaembu”, agora será administrado pela iniciativa privada.
A concessionária Allegra Pacaembu ganhou o direito de exploração por 35 anos. No lugar do tobogã, inaugurado no ano de 1.970, será construído um edifício multifuncional, com um moderno centro de convenções, que receberá shows e grandes eventos. A entrada principal e a arquibancada oval serão preservadas, tudo para manter a originalidade, desde a inauguração em 27 de abril de 1.940. Uma vida nova para o Pacaembu, que um dia já foi considerado o maior estádio do Brasil.
TREM DA PAULISTA: Nos idos dos anos 70, realizei uma façanha para assistir um jogo do Corinthians no Pacaembu, numa inesquecível viagem de trem. Juntamente com mais dois amigos: Zequinha e o Buião, este falecido, resolvemos embarcar nesta aventura. Planejamos com uma certa antecedência, e fomos juntando a grana para as despesas. Em comum acordo escolhemos ver o “Timão” ao vivo, e também o show da fiel torcida. O jogo foi num sábado, às 16 horas: Corinthians x Paulista de Jundiaí. O curioso é que nenhum dos três conhecia São Paulo. Fomos com a cara e a coragem.
O trem da Paulista partiu de Garça na sexta feira,
por volta das 22 horas. O Buião chegou na estação com a bandeira do
Corinthians e com um mapa desenhado pelo Túlio Calegaro, mostrando o trajeto
para chegar no campo. Com a grana curta, compramos passagem de segunda, banco
de madeira. O trem chegou lotado de passageiros. Até Bauru fomos em pé. Lá
desceu bastante gente, pois havia um entroncamento com a estrada de ferro
Sorocabana e Noroeste do Brasil. Com isto conseguimos somente um banco, para
duas pessoas. Resultado fomos em revezamento: dois sentados e um em pé. A cada
uma hora, um levantava, o outro sentava. O vagão lotado, o trem parava nas
estações, nada de alguém descer, só entrava. Era gente em pé no corredor e até
nos “engates”, entre um vagão e outro. Volta e meia o Buião, ficava em pé, e
balançava a bandeira do Corinthians, era mais gritos do que vaias. Poucos
dormindo, a viagem prosseguindo.
Em Itirapina teve um problema de baldeação, o trem
ficou parado umas duas horas. Atrasou tudo, chegamos em São Paulo eram 10 horas
da manhã, descemos na bela Estação da Luz. Todos cansados da noite mal dormida,
e ansiosos do que viria pela frente. Depois de um “pingado”: café com leite no
copo americano e um pão com manteiga, partirmos a pé ao Pacaembu, segundo o
Túlio num percurso de uns 5 quilômetros. E lá fomos nós entre ruas, avenidas e
prédios, era tudo novidade. Até que
encontramos um grupo de corintianos, aí foi fácil chegar.
Nos aproximamos das bilheterias, e compramos
ingressos pro tobogã, até porque era o mais barato. Assim que entramos no
estádio, a primeira medida foi subir todos os degraus e ficar bem lá no alto.
Os três estáticos por alguns minutos, vendo a monstruosidade de todo o campo. A
torcida foi chegando, logo o campo ficou lotado, com muitas bandeiras (na época
era permitido). Ao apito do `juizão´ Almir Laguna, começou o jogo, mas não vou
comentar muito não. O placar final:
Corinthians 2 x 3 Paulista de Jundiaí, e o duro que foi de virada. De
tudo, guardo a lembrança de um lance. O ponta esquerda do Corinthians chamava
Toninho Metralha. Digamos, era mais voluntarioso do que habilidoso. Assim que o
Corinthians tomou a virada, teve uma jogada para empatar, próximo do 45 minutos
finais. O Rivelino dominou a bola e fez um lançamento de prima para o Toninho
Metralha. Ao tentar dominar a bola, deu uma trombada com o lateral direito do
Paulista. Ambos caíram no chão. O Toninho mais ágil, levantou e com três toques
na bola, chegou a linha de fundo. Resolveu cruzar de “3 dedos” para o Geraldão,
que estava livre na marca do pênalti. Só que bisonhamente erra e dá um bicudo na
bola, que ao invés de ir na área, vem parar perto do tobogã. O Zequinha, sentado ao lado do Buião,
comentou na hora: “Acho que ele viu o Tico aqui no tobogã e cruzou para ele
marcar o gol”.
Depois desta jogada a torcida corintiana levantou e
foi indo embora de “cabeça inchada”. Nós também começamos a preparar a saída,
que sempre é meio tumultuada depois de uma derrota. Estávamos esperando, quando
aproxima de nós um senhor e o filho de uns 15 anos. Num rápido bate-papo,
perguntamos como fazia para chegar à Estação da Luz. Ele perguntou, onde
morávamos. Respondemos: de Garça. Na hora ele emendou: “é a terra do goleiro
Waldir Perez, time do qual torço, o meu filho é corintiano. Eu levou vocês até
lá perto”. Montamos numa perua Veraneio/Chevrolet e rapidinho ele nos deixou na
praça ao lado da estação.
Compramos os bilhetes, retorno garantido, era só
esperar o trem noturno com destino ao interior, que partia às 20 horas. Na
parte de fora da estação, próximo a um bar, era vendido aquele famoso churrasco
grego. Juntamos os trocados, deu 18
cruzeiros. O preço de 3 sanduíches e uma tubaína era 20. O Buião falou “No Bar
do Mogami em Garça, o Tiãozinho, faz por 15, quebra esta pra nós, que estamos
sem almoço e vamos viajar pro interior”. O churrasqueiro olhando pra nós aceitou
a oferta. Foi nossa primeira e única refeição naquele sábado. Por sinal, estava
deliciosa. Depois foi só esperar o trem e embarcar. Uma viagem bem mais
tranquila, poucos passageiros. Chegamos em Garça, no amanhecer de domingo. De
um lado triste, pela derrota corintiana. De outro, feliz por ter conhecido o
lendário Pacaembu, o mais charmoso estádio paulistano.
Infelizmente nada foi registrado, nenhuma foto de recordação. Naqueles tempos era difícil ter uma máquina de fotografia. Mas em nossa memória está registrado para sempre.



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